sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

Fragmentações de um percurso aleatório.





Visitemos a Austrália, sempre que possível, e observemos a pujante arquitectura que ali se aborígena.
Mas não podendo percorrer as vinhas austrais, sentemo-nos na soleira, na falta do degrau, e de novo apostemos no futuro, a incerteza absoluta.
Saudades do criador.

quarta-feira, 22 de Julho de 2009

Especialistas

“ A human being should be able to change a diaper, plan an invasion, butcher a hog, conn a ship, design a building, write a sonnet, balance accounts, build a wall, set a bone, comfort the dying, take orders, give orders, cooperate, act alone, solve equations, analyze a new problem, pitch manure, program a computer, cook a tasty meal, fight efficiently, die gallantly. Specialization is for insects.
Robert A. Heinlein (tumblcore)

quinta-feira, 14 de Maio de 2009

On the road, 66



O moleiro da minha aldeia, sempre branco dos pés aos cabelos, ele que tinha cabelo branco, passeava-se numa carrinha igual a esta pelas vielas apertadas da aldeia. Passeava-se, isto é, distribuía aos sacos, a farinha pelos clientes, que incluíam as pequenas mercearias espalhadas por um vasto território antes percorrido numa carroça puxada por uma mula.
Parece que ainda estou a ouvir barulho do motor, os amortecedores trazeiros no limite da compressão, tal era o peso dos sacos de farinha que subiam até ao tecto, a carrinha mais parecia uma rampa de lançamento. Por vezes ficava entalada nos trilhos esculpidos na ardósia por centenas de anos de rodas de carroças puxadas por mulas. Era uma questão de largura de eixos. Mas o motor aí é que mostrava o que valia, e o moleiro não exitava em tirar partido de toda a potência dos cavalos, agora que tinha cavalos à disposição.
Depois de vencidos os obstáculos, chegava á loja do Ti Francisco, o pai do meu padrinho, e descarregava um saco que transportava de maneira muito própria, a mão na anca, o cotovêlo sobreelevado compunha uma base triangular se contarmos com os ombros . E era ali que, com um movimento de ombro e a ajuda da mão livre, como num golpe de judo, transportava o saco pesado, de farinha que , diz-se, nunca sujou o moleiro. Pois ele era todo branco, com um ligeiro ton amarelado, como a carrinha.
Já a mula, essa parece-me que era cinzenta. Pois.

sexta-feira, 8 de Maio de 2009

WHEN THE FUTURE MEETS

Neri Oxman

Materialecology

Explorem.

quarta-feira, 25 de Março de 2009

Casa lc







Para a Luísa Crespo, desenhei uma casa com uma ponte quase levadiça sobre um "fosso" como nos castelos de fadas.
E muita luz, para se poderem observar as pinturas nas paredes, mesmo de noite, que, como sabemos, ocupa pelo menos metade dos dias.
Gosto também das escadas, no limite, dos espaços de transição, dos tectos que sobem em ângulos, dos diferentes pés-direitos, da definição dos espaços de estabilidade e repouso... e da funcionalidade, apesar das piquenas coisas resultantes de uma construção em ajuste directo.
O meu primeiro projecto em Porto de Mós.

sexta-feira, 2 de Janeiro de 2009

ARCHITECTURA

Um Poema de : Soares Feitosa

Um dia, Ela desenhará em chãos longínquos a casa só nossa, que eu farei com estas mãos.

Os tijolos, eu os amassarei com os meus pés.

Às telhas — hei de aprontar o barro mais macio, e as formas serão por mim, uma a uma, completadas;

Ela as alisará longamente —
seus dedos molhados de um profundo silêncio:
só os pássaros.

Fortaleza, manhã de 19.11.1998



Após a leitura deste poema, já há alguns anos, deixei no site do poeta brasileiro este comentário:

A poética na arquitectura diz-se uma realidade espacial que pela sua proporção, harmonia e funcionalidade, potencia uma das mais clarividentes e reveladoras experiências que nós humanos podemos viver.
A poética arquitectónica assentará no despreendimento e na capacidade de abstração, mas também na interpretação do que se procura materializar como espaço, na modelação e controle da luz, no "assentamento" na paisagem e na convergência dos tempos de acção, esta última talvez a condição mais difícil de obter...
No entanto, lê poesia apenas quem a procura...
A terra, a transcendência do Amor, a necessidade de (a)riscar, o sonho, a transformação, são tudo matéria do espaço arquitectónico.
Obrigado por me ter provocado esta leitura esquecida da minha profissão.

Helder Ventura

terça-feira, 30 de Dezembro de 2008

Projecto " Ó bar "




( h.ventura)
Dado o estado em que se encontra actualmente esta construção, projecto e obra que marcou a minha vida de arquitecto, nunca imaginei que o nome original deste bar de grande escala fosse tão apropriado ao seu destino: Ó bar ...
Actualmente uma ruina vandalizada após dois incêndios, nódoa negra no centro da cidade de Ovar, mesmo em frente ao centro de artes ainda em construção.

Deixo aqui umas imagens de 1999 e 2000, altura em que terminou a obra. O processo e o projecto iniciaram-se em 1995, e foi muito curioso...

Hoje, resta alguma saudade dos momentos de stress e das inúmeras e longas conversas em torno dos esquiços do Sérgio, onde eu riscava, e dos meus esquiços, onde o Sérgio intervinha, ora riscando , ora lembrando a necessária coerência gramatical da frase.

E as idas á obra a pé, desde o escritório onde também trabalhavam mais arquitect(a)s , para esclarecimentos e desenho "in loco", visitas quase diárias em certos períodos.

O construtor , o sr. Matias, uma das melhores pessoas com quem trabalhei. O Sérgio, colega de profissão, foi a pessoa certa para me acompanhar nesta tarefa e muito deste bar a ele lhe pertence. Lembro também uma conversa com o Rogério, depois de uma primeira proposta assente numa base triangular, dizer: "falta-lhe talvez aqui uma curva...", (pois pensava-se numa ligação rodoviária desde o casal até ao parque Sra da Graça).
E uns dias depois já o projecto era outro. Ah! e a proposta de um pião gigante em madeira, proposta que fiz chegar à CMO para o largo em frente à escola da Oliveirinha, (doce ingenuidade!). No, entanto preocupado com o pião , não fosse a ideia ser aceite, lá fui eu a Lisboa a um congresso de construção em madeira. Aí conheci o Eng. belga que projectou e dirigiu a execução da estrutura de madeira para o pavilhão Atlântico, pessoa muito cordial, (quando lhe disse que tinha estudado no Porto quase me fez uma vénia, o que muito me embaraçou!). Falei-lhe deste projecto, uma breve descrição, e a opção da madeira nunca mais foi abandonada...

Pena é que até hoje não me tenha surgido mais nenhuma oportunidade para articular ferro, betão, madeira numa outra obra. A gramática construtiva como princípio estruturante... e o sítio como fonte de dinâmicas de contradição. A função, essa sempre se adaptará por exemplo, a uma gare de barcos, prontos para o transporte das nossas vidas, e de todos os que passaram por este Bar. Ó bar...

os esquiços...

O sérgio e o Sr. matias...


Vista para sul, desde o andar



o Sul.


Os espaços de conflito...

e o que daí resulta...


Uma porta-biombo e um café à beira do lago...

A sala maior,

volumes poente,


e com os pés na água...

e também os joelhos.
e as mãos.