quarta-feira, 25 de março de 2009

Casa lc







Para a Luísa Crespo, desenhei uma casa com uma ponte quase levadiça sobre um "fosso" como nos castelos de fadas.
E muita luz, para se poderem observar as pinturas nas paredes, mesmo de noite, que, como sabemos, ocupa pelo menos metade dos dias.
Gosto também das escadas, no limite, dos espaços de transição, dos tectos que sobem em ângulos, dos diferentes pés-direitos, da definição dos espaços de estabilidade e repouso... e da funcionalidade, apesar das piquenas coisas resultantes de uma construção em ajuste directo.
O meu primeiro projecto em Porto de Mós.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

ARCHITECTURA

Um Poema de : Soares Feitosa

Um dia, Ela desenhará em chãos longínquos a casa só nossa, que eu farei com estas mãos.

Os tijolos, eu os amassarei com os meus pés.

Às telhas — hei de aprontar o barro mais macio, e as formas serão por mim, uma a uma, completadas;

Ela as alisará longamente —
seus dedos molhados de um profundo silêncio:
só os pássaros.

Fortaleza, manhã de 19.11.1998



Após a leitura deste poema, já há alguns anos, deixei no site do poeta brasileiro este comentário:

A poética na arquitectura diz-se uma realidade espacial que pela sua proporção, harmonia e funcionalidade, potencia uma das mais clarividentes e reveladoras experiências que nós humanos podemos viver.
A poética arquitectónica assentará no despreendimento e na capacidade de abstração, mas também na interpretação do que se procura materializar como espaço, na modelação e controle da luz, no "assentamento" na paisagem e na convergência dos tempos de acção, esta última talvez a condição mais difícil de obter...
No entanto, lê poesia apenas quem a procura...
A terra, a transcendência do Amor, a necessidade de (a)riscar, o sonho, a transformação, são tudo matéria do espaço arquitectónico.
Obrigado por me ter provocado esta leitura esquecida da minha profissão.

Helder Ventura

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Projecto " Ó bar "




( h.ventura)
Dado o estado em que se encontra actualmente esta construção, projecto e obra que marcou a minha vida de arquitecto, nunca imaginei que o nome original deste bar de grande escala fosse tão apropriado ao seu destino: Ó bar ...
Actualmente uma ruina vandalizada após dois incêndios, nódoa negra no centro da cidade de Ovar, mesmo em frente ao centro de artes ainda em construção.

Deixo aqui umas imagens de 1999 e 2000, altura em que terminou a obra. O processo e o projecto iniciaram-se em 1995, e foi muito curioso...

Hoje, resta alguma saudade dos momentos de stress e das inúmeras e longas conversas em torno dos esquiços do Sérgio, onde eu riscava, e dos meus esquiços, onde o Sérgio intervinha, ora riscando , ora lembrando a necessária coerência gramatical da frase.

E as idas á obra a pé, desde o escritório onde também trabalhavam mais arquitect(a)s , para esclarecimentos e desenho "in loco", visitas quase diárias em certos períodos.

O construtor , o sr. Matias, uma das melhores pessoas com quem trabalhei. O Sérgio, colega de profissão, foi a pessoa certa para me acompanhar nesta tarefa e muito deste bar a ele lhe pertence. Lembro também uma conversa com o Rogério, depois de uma primeira proposta assente numa base triangular, dizer: "falta-lhe talvez aqui uma curva...", (pois pensava-se numa ligação rodoviária desde o casal até ao parque Sra da Graça).
E uns dias depois já o projecto era outro. Ah! e a proposta de um pião gigante em madeira, proposta que fiz chegar à CMO para o largo em frente à escola da Oliveirinha, (doce ingenuidade!). No, entanto preocupado com o pião , não fosse a ideia ser aceite, lá fui eu a Lisboa a um congresso de construção em madeira. Aí conheci o Eng. belga que projectou e dirigiu a execução da estrutura de madeira para o pavilhão Atlântico, pessoa muito cordial, (quando lhe disse que tinha estudado no Porto quase me fez uma vénia, o que muito me embaraçou!). Falei-lhe deste projecto, uma breve descrição, e a opção da madeira nunca mais foi abandonada...

Pena é que até hoje não me tenha surgido mais nenhuma oportunidade para articular ferro, betão, madeira numa outra obra. A gramática construtiva como princípio estruturante... e o sítio como fonte de dinâmicas de contradição. A função, essa sempre se adaptará por exemplo, a uma gare de barcos, prontos para o transporte das nossas vidas, e de todos os que passaram por este Bar. Ó bar...

os esquiços...

O sérgio e o Sr. matias...


Vista para sul, desde o andar



o Sul.


Os espaços de conflito...

e o que daí resulta...


Uma porta-biombo e um café à beira do lago...

A sala maior,

volumes poente,


e com os pés na água...

e também os joelhos.
e as mãos.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Casa em Leiria








um projecto de 2000 que se concluiu em 2004.
dono da obra: josé carvalhana silva
construtor: Betonit
colaborador essencial: bruno soares, arq.
Projecto: h. ventura




Quando a obra se concluiu, não me foi permitido tirar fotos do interior, facto que lamento. Posso dizer que no interior está a virtude deste projecto, onde ganham especial relevo as transparências entre espaços perfeitamente definidos e que pela presença de um jardim interior ao nível do r/c que separa a zona de estar da sala de refeições, e de um sistema de escadas que rodeia um saguão que percorre os três pisos, (fornece algum dramatismo cénico...), conseguem-se transparências na vertical, equilibrando muito a horizontalidade, constante em muitos dos projectos onde intervenho.
Vista interessante é a do jardim interior a partir do saguão ao nível do piso da cave, vendo-se as plantas (bambús) num nível superior, entre superfícies espelhadas. Especial cuidado na iluminação, que acentua muito as superfícies e os percursos.
Um dia pode ser que revisite a casa e consiga as fotos, o que duvido.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

A casa do futuro, a casa no futuro

( a propósito de um convite que me foi formulado por uma turma do 12º ano do colégio de Albergaria....)




Ter uma conversa sobre o modo como será a habitação no futuro não é um exercício de futurologia.
Porque...
A minha profissão resulta da necessidade de "projectar". Nesta profissão de arquitecto, assim como noutras cuja função primordial é projectar - isto é, parametrizar uma realidade que se vai construindo do virtual ao real, através de um processo sistémico, dinâmico e evolutivo, obtêm-se uma consciência muito próxima do que poderá vir a ser uma realidade futura.

( esqiço do arq. Siza Vieira)

Por uma questão de racionalidade prefiro colocar esta realidade futura num futuro próximo, um futuro que se vê... que resulta das nossas atitudes no presente. Falar da casa do futuro daqui a quinhentos ou mil anos será exercício de ficção científica.

Deste modo, analisando um pouco do processo evolutivo no presente, podemos ter uma ideia mais ou menos fundamentada de como será a casa no futuro, pois racionalmente podemos fazer o exercício de projectarmos nós próprios a casa do futuro, tendo próxima a noção de como será o Homem a quem se destina a casa, de como se processam as técnicas construtivas, e de como será o suporte físico natural, ( a envolvente com o território) nesse futuro.


Como será fácil de aceitar, a casa depende sempre de três factores primordiais: A terra, a Técnica e o Homem. Por outras palavras, as casas e as construções humanas resultam de um processo onde se sintetizam aspectos antropológicos, aspectos ecológicos e aspectos técnicos.



Assim, para pojectarmos a casa do futuro temos que conhecer o homem do futuro teremos que saber como se relaciona o homem com o Território no futuro e temos de procurar antecipar o desenvolvimento tecnológico no futuro.


Ainda, e para além dos aspectos funcionalistas e mesuráveis, a síntese resultante pode materilizar uma expessão artística, uma obra de arte. Sendo este um aspecto fundamental da arquitectura e que a distingue de outras actividades relacionadas com a construção, entramos num território muito mais difícil de antecipar. Ou talvez não. Mudou o homem assim tanto ao longo dos tempos?


Portanto, a casa do futuro, deste futuro que se vê, e que é o que nos interessa, resultará do que nós fizermos no presente.
No presente, os nossos padrões de desenvolvimento, as políticas económicas e os modelos de consumo cada vez mais sedutores resultam numa proliferação desmesurada de modelos que nos fazem crer que já vivemos no futuro e que o futuro é hoje. Queima-se assim uma etapa importantíssima do nosso tempo que é o presente. E O PRESENTE É HOJE.

O que se passa hoje?
O panorama que eu vejo é preocupante.
Os nossos paradigmas de desenvolvimento baseiam-se na constante procura de bens, na constante exploração de recursos, na acumulação constante de resíduos resultantes deste processo ( a que chamamos consumismo).
Por outro lado os recursos como sabemos não são inesgotáveis...

O fenómeno de produção de casas nas sociedades mais liberais e estabilizadas sob o ponto de vista demográfico acompanha este fenómeno de aceleração desmesurada do consumo.
A oferta e colocação de casas no mercado ultrapassa de longe as nossas necessidades. Em Portugal já há duas vezes mais casas do que o necessário para a população portuguesa.
Por outro lado na China, no Dubai, o frenesi construtivo está a crescer a um ritmo fenomenal porque muita população necessita de casas, por um lado ( China) e por outro a especulação e a mobilidade nos paises asiáticos promove o desenvolvimento de modelos de vida similares aos padrões Ocidentais.( Dubai).

Mas, voltando ao princípio, o que é uma casa?
A casa é, neste processo e independentemente dos variados modelos, uma construção humana cuja função primordial é o ABRIGO permanente.


Como será fácil de reconhecer, dos inúmeros modelos de casa e construções que foram sendo edificadas nas mais diversas partes do globo e ao longo do TEMPO, poderemos detectar grandes diferenças, desde as construções em terra do Mali até aos igloos dos esquimós, passando pelas grandes construções do egipto até ás fantásticas casas dos romanos, aos palácios do Rajaquistão até às casas de vidro de Mies Van der Rohe , etc etc, ...
Temos portanto que de cada contexto de desenvolvimento técnico, de cada contexto de materiais disponíveis e de cada contexto antropológico resulta uma determinada casa, um determinado abrigo.
Durante séculos o processo de construir resultava dos contextos locais e deste modo se fortaleceram métodos e técnicas e tipologias intimamente relacionadas com o território e imediatamente identificáveis e localizadas.
No entanto, a globalização e as tecnologias de comunicação, aliadas a um desenvolvimento que inicia os primeiros passos na aplicação de novos materiais, menos predadores do ambiente, o surgimento de novos “modus vivendi” resultantes de rupturas nos padrões tradicionais da estruturação social, assim como a feroz agrassividade da indústria da construção e concepção de novos espaços, faz com que vivamos uma espiral de criatividade na concepção de novos modelos construtivos.

casas flutuantes

O maior edifício do mundo ( Foster and partners)
O que fazer então em relação ao futuro?

Dizia o sociólogo Boaventura de Sousa Santos : "Um dia teremos que inventar, sempre com atrazo, o que tinhamos quando eramos atrazados".

Lembro Buckminster Fuller, ”, uma das mentalidades mais originais e fascinantes do séc. XX, que nasceu em 1895 na cidade de Milton, Massachusetts, criador da frase e do conceito “ NAVE ESPACIAL TERRA".

Considerado o “último dos transcendentalistas” , Fuller rejeita as religiões estabelecidas e as nocões políticas do passado aderindo a um sistema de pensamento idealista, baseado na unidade essencial do mundo natural e à utilização do experimentalismo e da intuição como meios para a compreensão desse mundo.
Defendia que só através de um profundo conhecimento da tecnologia e da ciência a humanidade encontraria princípios e regras estruturantes do indivíduo numa conduta para a salvação da sociedade.
Buckminster Fuller ( “Bucky”) dizia : " o Homem sabe tanto, tanto, mas faz tão pouco..."



O Futuro constrói-se hoje


Helder Ventura, arquitecto.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

BIG

"Historicamente a influência da arquitectura tem dois extremos. O lado vanguardista, cheio de ideias malucas oriundas da filosofia, misticismos, pela fascinação do potencial/visual/formal dos computadores que, muitas vezes, afasta a arquitectura do real, tornando-a uma curiosidade discrepante e excêntrica. Por outro lado temos os bem-organizados consultores empresariais da arquitectura previsível e aborrecida das caixas de alto standard. Parece que a arquitectura fenece entrincheirada em duas tendências: ou ingenuamente utópica ou rígida e pragmática. Nós acreditamos que há uma terceira via encravada no no man’s land equidistante aos extremos opostos, situada na estreita mas muito fértil zona de sobreposição entre as duas: O pragmatismo utópico - ter como objectivo pratico a criação de lugares social, económico e ambientalmente perfeitos. Testamos nos nossos projectos os efeitos de escala e de equilíbrio em misturas programáticas e os resultados obtidos ao nível social, económico e ambiental."
do "instituto futurista" sobre a arquitectura de um grupo dinamarquês BIG vêja. Vale o tempo.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Casa Moura Pinto - Ovar

Helder Ventura
com
Bruno Soares







proj. - 2004
Obra- 2007